Saúde Humana 7 de dezembro de 2022, 12:30 07/12/2022

Autoimunidade: por que o corpo age contra si mesmo?

Autores

Jovens revisores

Resumo

O corpo humano é feito de 37 trilhões de células, e bilhões delas morrem a cada dia. Dentre elas há algumas especiais, chamadas macrófagos, que consomem as células mortas para evitar seu acúmulo no corpo. Os macrófagos também conseguem comer quaisquer células infectadas por bactérias ou vírus. Isso ajuda nosso corpo a permanecer o mais saudável possível. Às vezes, os macrófagos recebem um sinal errado e atacam células saudáveis. Quando isso acontece, nosso corpo desenvolve uma reação alérgica ou inflamação que pode levar à chamada autoimunidade.

Os macrófagos são “donas de casa”

O corpo humano é bastante complexo. Ele possui 37 trilhões (37.000.000.000.000) de células. Se você colocasse em fila todas as células do corpo humano, a linha se estenderia um pouco além da distância da Terra à Lua! Diariamente, cerca de 50 bilhões (50.000.000.000) de células do corpo humano morrem como parte corriqueira do processo biológico. Essas células precisam ser removidas para que o corpo permaneça saudável. O corpo possui células especiais, chamadas fagócitos, que comem (processo a que se dá o nome de fagocitose) as células mortas e desempenham funções de “dona de casa” para garantir que o lixo seja jogado fora. Um tipo comum de fagócito é o macrófago, que em grego significa “grande comedor”.

Quando as células estão morrendo, enviam um sinal de “comam-me” através de uma substância química chamada fosfatidilserina, que alerta os macrófagos para praticarem a fagocitose. Os macrófagos então “mastigam” as células mortas usando vários tipos de proteínas digestivas, semelhantes às que existem em nosso estômago. Às vezes, os macrófagos podem atacar nosso próprio corpo ao consumir células que não estão mortas. Isso, porém, nem sempre é ruim.

Os macrófagos ajudam a evitar doenças

Nosso sistema imunológico nos protege de doenças ao reconhecer moléculas estranhas, como as de bactérias e vírus, sem reagir às nossas próprias moléculas. Bactérias e vírus que causam infecções são conhecidos como patógenos. Quando nossas células são infectadas por um patógeno, ele começa a se reproduzir fazendo cópias de seu DNA ou RNA (instruções celulares) e produzindo também uma grande quantidade de moléculas que atacam os mecanismos de defesa do sistema imunológico (Figura 1) [1].

O DNA do patógeno e as moléculas que ele produz são estranhas às células humanas e, por isso, atuam como um sinal de “perigo”, indicando que algo está errado com a célula infectada. Esse sinal faz com que a fosfatidilserina fique exposta na superfície da célula infectada para atrair macrófagos. Depois que os macrófagos se aproximam da célula infectada e a comem, levam pedaços do patógeno, conhecidos como antígenos, a outras células imunes, para que o sistema imunológico possa gerar uma lembrança desse patógeno específico. Se as células infectadas não forem comidas pelos macrófagos, então mais células, ou mesmo o órgão inteiro, podem ficar infectados pelo patógeno. Depois que a célula infectada é comida pelos macrófagos, as bactérias ou vírus não conseguem sobreviver ou reproduzir-se, e morrem com ela. Isso interrompe a infecção e mantém o corpo saudável.

A Figura 2 mostra um macrófago que comeu quatro células mortas. Essa imagem foi obtida por um microscópio poderoso chamado microscópio eletrônico.

Figura 1. Uma célula saudável é infectada por um vírus (cor roxa), que faz com que a fosfatidilserina (cor vermelha) fique exposta na superfície da célula, que então recruta macrófagos (cor verde) para comer a célula infectada.
Figura 2. Imagem obtida por microscópio eletrônico mostrando um macrófago comendo quatro células mortas (bolhas pretas dentro do macrófago) [2].
 

Pedaços de DNA podem ativar macrófagos

Em nossas células, o DNA se situa dentro do núcleo, ou “centro de controle” da célula. Caso o DNA seja encontrado fora do núcleo, é sinal de que a célula foi infectada por uma bactéria ou vírus. Quando isso acontece, a célula envia sinais às células do sistema imunológico para dizer-lhes que existe um problema. Muitos vírus infectam uma célula e copiam seu DNA, para poderem inserir o DNA deles no DNA da célula e escondê-lo do sistema imunológico.

Mas o vírus é um tanto desastrado ao copiar o DNA e deixa vários pedaços pequenos de DNA flutuando por ali. Quando a célula percebe esses pedaços, pede que macrófagos a comam antes que o DNA do vírus entre no seu. Os vírus, porém, evoluíram e se tornaram muito espertos. Usam proteínas especiais, como a TREX1, para devorar pedacinhos de DNA fora do núcleo que poderiam atrair macrófagos [3]. Enquanto o vírus faz a maior bagunça com seu DNA, a TREX1 engole o DNA para que os macrófagos não ataquem a célula infectada. Isso faz a célula parecer saudável, embora esteja infectada, e permite ao vírus continuar crescendo. Mas se a TREX1 parar de trabalhar, os pedaços de DNA começam a se acumular e a célula fica realmente doente. Os macrófagos então iniciarão o ataque a essa célula doente ainda que ela não esteja infectada e isso pode causar inflamação.

O sistema imunológico também pode provocar doença

Às vezes, depois que o sinal de “perigo” foi enviado, as células não removem o sinal “comam-me”. Quando isso acontece, o sistema imunológico continua pensando que as células estão infectadas e ataca-as. Outras vezes, células saudáveis apresentam alguns antígenos “normais” ao sistema imunológico de tal maneira que este é ativado, embora não haja nenhum sinal de “perigo” dentro da célula hospedeira. Então, os macrófagos não sabem que não há uma ameaça real e atacam a célula sadia assim mesmo.

Essa resposta pode causar reações alérgicas ou a condição chamada autoimunidade. A autoimunidade é o processo pelo qual o sistema imunológico ataca nosso corpo. Provoca inflamação (inchaço) e dor. Pode estar presente no corpo inteiro ou apenas em um órgão. Há mais de oitenta doenças provocadas pela autoimunidade, como lúpus, artrite reumatoide e doença de Crohn. A autoimunidade afeta milhões de americanos, sendo as mulheres as mais suscetíveis, com 75% dos casos. Mas como podemos tratar a autoimunidade?

Tratamentos para a autoimunidade

A autoimunidade é um problema complicado porque cada doença autoimune envolve macrófagos que atacam diferentes células em diferentes áreas do corpo. Por exemplo, na miocardite, o sistema imunológico ataca o coração; na nefrite lúpica, são atacados os rins.

Pelo fato de a autoimunidade ser tão complicada, a maioria dos tratamentos para as doenças autoimunes hoje usados combate apenas seus sintomas. Os tratamentos fazem o paciente se sentir melhor, mas na verdade não impedem que os macrófagos ataquem o corpo.

Alguns dos tratamentos mais comuns para pessoas que sofrem realmente de doenças autoimunes são drogas chamadas imunossupressores. Essas drogas contêm, ou desaceleram, o sistema imunológico. Embora os imunossupressores façam o paciente se sentir melhor de sua doença, também aumentam as chances de que ele venha a contrair outras bactérias e vírus, como o resfriado, pois o sistema imunológico não funciona tão bem em presença dessas drogas. Outro tipo de droga ministrado a pacientes com doenças autoimunes é o que diminui o inchaço e a inflamação. Essas drogas são chamadas de anti-inflamatórias e são usadas também para a dor de cabeça. Elas fazem o paciente se sentir melhor porque eliminam parte da dor.

Conclusão

O corpo é composto por trilhões de células e, quando elas ficam doentes e morrem, é preciso removê-las. Os macrófagos são um tipo de célula que consome as células mortas ou infectadas para preservar a saúde do corpo. As células podem sentir que estão infectadas por uma bactéria ou vírus devido à presença de moléculas estranhas produzidas pelo patógeno. A célula infectada usa essas moléculas estranhas para chamar macrófagos, que então acorrem para comê-la (fagocitose). O vírus e a bactéria morrem também juntamente com a célula digerida, não podendo mais se reproduzir nem infectar outras células. Às vezes, o sistema imunológico recebe uma mensagem errada e ataca células que não estão infectadas nem mortas. Isso provoca reações alérgicas ou doenças autoimunes.

Os atuais tratamentos para a autoimunidade apenas aliviam os sintomas do paciente, diminuindo a dor ou a inflamação graças à supressão do sistema imunológico. Com o avanço das pesquisas, as áreas da ciência e da medicina poderão compreender e tratar melhor as doenças autoimunes.

Glossário

Macrófago: Tipo de célula (fagócito) que come células mortas ou infectadas.

Fosfatidilserina: Sinal químico usado para chamar macrófagos, que aparecem para comer a célula morta.

Patógenos: Bactérias ou vírus que provocam infecção nas células humanas.

TREX1: Proteína que mastiga DNA.

Autoimunidade: Doença causada por macrófagos que atacam células saudáveis.

Imunossupressores: Drogas usadas para desacelerar o sistema imunológico e impedi-lo de atacar células saudáveis.

Conflito de interesses

Os autores declaram que a pesquisa foi conduzida sem relações comerciais ou financeiras que possam causar conflito de interesses.

Referências

[1] National Institute of Allergy and Infectious Diseases. 2013. “Immune system.” Disponível em https://www.niaid.nih.gov/research/immune-system-overview.

[2] McIlroy, D., Tanaka, M., Sakahira, H., Fukuyama, H., Suzuki, M., Yamamura, K. et al. “An auxiliary mode of apoptotic DNA fragmentation provided by phagocytes.” Genes Dev. 14:549–58. DOI: 10.1101/gad.14.5.549.

[3] Bailey, S. L., Harvey, S., Perrino, F. W. e Hollis, T. 2012. “Defects in DNA degradation revealed in crystal structures of TREX1 exonuclease mutations linked to autoimmune disease.” DNA Repair (Armst.) 11(1):65–73. DOI: 10.1016/j.dnarep.2011.10.007.

Citação

Davis, R. e Hollis, T. (2016). “Autoimmunity: why the body attacks itself.” Front. Young Minds. 4:23. DOI: 10.3389/frym.2016.00023.

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