Neurociências e Psicologia 14 de setembro de 2022, 12:19 14/09/2022

“Bé, bé”: será que as ovelhas conversam entre si?

Autores

Jovens revisores

Resumo

Se você alguma vez foi para o campo na primavera, deve ter ouvido ovelhas balindo para seus filhotes. Elas também emitem balidos quando estão separadas do rebanho ou se sentem estressadas de alguma forma. Para nós, todos os balidos soam praticamente iguais. Mas será que é assim também para os cordeiros? Ou você acha que os cordeiros sabem qual mãe está chamando, e o que ela está dizendo? Os cientistas tentam interpretar os balidos das ovelhas observando como se comportam ao ouvirem esses sons. Eles estudam as ondas sonoras de gravações de balidos para identificar a voz particular de cada ovelha e até determinar quais emoções ela está vivenciando. Também investigam o cérebro das ovelhas para descobrir o que se passa ali quando elas ouvem e entendem os sons emitidos por outras. Os estudos mostram que as ovelhas realmente podem reconhecer as vozes das outras e comunicar-se vocalmente entre si.

Comunicação por som

Você acha que outros animais, além dos humanos, podem se comunicar por meio de conversas? E que tal se a comunicação ocorrer por outros meios além da conversa? Se você já teve um bicho de estimação, provavelmente sabe que os animais sem dúvida são capazes de se comunicar conosco. Um cachorro pode lhe pedir para atirar um pedaço de pau apenas depositando-o a seus pés. Um gato pode pedir comida apenas se esfregando em sua perna. Esses animais usam o comportamento para se comunicar. Se você não fizer o que eles pedem, o cachorro começará a latir e o gato começará a miar, insistindo para serem atendidos imediatamente! O latido e o miado são exemplos de sons que os animais produzem pela boca (como se conversassem) para se comunicar. Pela observação de animais em fazendas, em zoológicos ou na natureza, cientistas chamados etólogos(que estudam o comportamento dos bichos) descobriram que eles podem se comunicar usando sons: as chamadas vocalizações.

A interpretação dos sons emitidos pelas ovelhas a partir de seu comportamento

As vocalizações das ovelhas se chamam balidos. Para interpretar essas vocalizações das ovelhas, os etólogos muitas vezes as estudam juntamente com seu comportamento, usando câmeras de vídeo e microfones. Graças a essas observações, eles mostraram que os cordeiros e suas mães, as ovelhas, podem se comunicar usando o que chamam de balidos altos e balidos baixos. Os balidos baixos são emitidos com a boca fechada, quando uma ovelha e seu filhote estão próximos, durante os momentos de cuidados maternos como a amamentação e as lambidas. Os balidos altos são emitidos com a boca aberta, quando a ovelha e o cordeiro estão separados. É mais ou menos o que acontece quando os pais gritam para seus filhos que se afastaram muito! Esses balidos altos são emitidos também por ovelhas quando estão separadas do rebanho, quando se sentem estressadas e mesmo quando a comida demora para chegar! A partir dessas observações, interpretamos os balidos baixos como vocalizações reconfortantes e os balidos altos como demonstrações de aflição. Mas os cientistas não se limitam a observar os animais; eles também elaboram experimentos recorrendo a testes de comportamento a fim de descobrir como as ovelhas usam balidos para se comunicar.

O teste comportamental de dupla escolha nos ajuda a descobrir se os animais conseguem perceber a diferença entre dois sons. Se você ouve um cão latir e um gato miar, pode facilmente dizer qual é o som emitido pelo cão. Mas se ouve uma ovelha e um cordeiro balir, consegue dizer qual é o som emitido pela ovelha? Esses são dois exemplos do teste de dupla escolha a que você responderia falando. Mas ovelhas não podem nos dar a resposta – então, de que modo respondem a um teste de dupla escolha?

Um método que os cientistas usam é apresentar balidos vindos de diferentes locais, à esquerda e à direita (Figura 1). Quando a ovelha ouve os balidos, reage de várias maneiras. Os cientistas contam quantas vezes uma ovelha se encaminha para o local de cada som e permanece por ali. Em um estudo, cordeiros com 48 horas de vida tiveram de escolher entre o balido da mãe em um local e o balido de uma ovelha desconhecida em outro [1]. Não podiam ver nem farejar as ovelhas, podiam apenas ouvi-las. Os cordeiros escolheram o som de suas mães com muito mais frequência do que o som da ovelha desconhecida. Assim, descobrimos que cordeiros preferem os balidos de suas próprias mães e sabem a diferença entre os balidos de várias ovelhas. Com base em outro teste parecido, também descobrimos que as ovelhas preferem os balidos de amigos que vivem no mesmo redil aos balidos de ovelhas desconhecidas.

Figura 1. Um teste comportamental de dupla escolha em que cordeiros ouvem dois balidos vindos de locais diferentes e mostram sua preferência por um deles caminhando naquela direção e permanecendo ali. (A) Um cordeiro (embaixo) ouve os balidos de duas ovelhas que não pode ver. Um balido é de sua mãe (à esquerda, em azul) e o outro é de uma ovelha desconhecida (à direita, em laranja). (B)  O balido da mãe (esquerda) e o da ovelha desconhecida (direita) são emitidos por alto-falantes em locais separados e os cientistas contam o número de vezes que o cordeiro caminha na direção de cada balido.

As vocalizações das ovelhas podem ser apresentadas aos cordeiros de duas maneiras.  Primeira: os balidos são emitidos pelas próprias ovelhas, escondidas dos cordeiros durante o teste. Segunda: os balidos são gravados antes do teste e emitidos por meio de alto-falantes (Figura 1). Um dos problemas ocorridos quando os balidos são vocalizados pelas próprias ovelhas é que estas podem “dizer” o que quiserem. Os cientistas não podem exigir que elas emitam balidos altos ou baixos. Assim, para testar se os cordeiros preferiam balidos altos ou baixos, foi necessário usar alto-falantes, que reproduziram os balidos altos de um lugar e os balidos baixos de outro [1]. Os resultados mostraram que os cordeiros não tinham preferência – pareciam gostar dos dois. Outra boa razão para usar balidos gravados é que podemos também obter informações interessantes da análise de suas ondas sonoras.

Análise das ondas sonoras dos balidos

As ondas sonoras possuem propriedades físicas que podem ser medidas e analisadas. Uma importante propriedade física do som é sua amplitude. Sons de alta amplitude são agudos, ao passo que sons de baixa amplitude são graves. Do mesmo modo, balidos altos são mais agudos que os balidos baixos porque sua amplitude é maior. Os balidos também têm diferentes frequências, que são outra propriedade física importante das ondas sonoras. Balidos altos têm frequência maior que balidos baixos. Para entender como realmente soam as diferentes frequências, imagine o som de um apito (alta frequência) e o de um trovão (baixa frequência). Os pesquisadores de  bioacústica são cientistas que estudam a amplitude, a frequência e outras propriedades físicas dos sons a fim de identificar as características próprias de cada um deles.

Ao telefone, você consegue reconhecer a pessoa com quem está falando por sua voz. E consegue porque cada voz tem uma assinatura vocal. Tal como as impressões digitais, a assinatura vocal de uma pessoa é única, constituída por uma combinação exclusiva de propriedades físicas do som. Estudando as propriedades físicas das vocalizações das ovelhas, os pesquisadores de bioacústica demonstraram que esses animais também possuem assinaturas vocais que podem ser usadas para identificá-los [2].

A combinação de propriedades sonoras numa vocalização poderá também nos dizer quais emoções um animal está sentindo? Os pesquisadores de bioacústica estão atualmente estudando isso. Se forem bem-sucedidos, conseguirão desenvolver um programa de computador para detectar os vários tipos de balidos graças à análise da combinação das propriedades sonoras. Por exemplo, poderão detectar automaticamente se um animal de fazenda está sentindo dor [3] e alertar o proprietário para ajudá-lo.

Mas como essas propriedades são normalmente analisadas, interpretadas e identificadas por outros indivíduos que ouvem as vocalizações? Bem, acontece que os pesquisadores de bioacústica não são os únicos a analisar as propriedades físicas dos sons: o cérebro também é especialista nisso.

Como reconhecer um som como vocalização

Antes que seja reconhecido como vocalização, um som precisa chegar até o cérebro. Alcança primeiro o ouvido externo e depois suas propriedades físicas (como a frequência) são enviadas por meio do tímpano às partes média e interna do ouvido (Figura 2). No ouvido interno, as células ciliadas de um órgão chamado cóclea transformam o som em impulso elétrico. As células ciliadas são muito finas e frágeis, podendo ser rompidas caso você ouça música em volume muito alto. Os impulsos elétricos viajam pelo nervo coclear até o cérebro. O papel deste é importantíssimo na audição: ele ouve sons, os ouvidos não. Para que um animal identifique e entenda um som, muitas partes de seu cérebro são requisitadas.

Figura 2. Como um som se torna voz.
Ao balir, um cordeiro produz uma onda sonora que viaja pelo ar até os ouvidos de sua mãe. Dentro do ouvido, o som faz o tímpano (azul) vibrar. As vibrações chegam até as células ciliadas da cóclea (amarelo), que as transforma em impulso elétrico. Este é transportado pelo nervo coclear (rosa) até o cérebro (roxo). Várias partes do cérebro analisam, interpretam e identificam o impulso elétrico: assim, a ovelha fica sabendo que o som que ouve é o balido feliz de seu cordeiro.

As partes do cérebro desempenham, cada uma, um papel diferente e só a combinação delas trabalhando juntas é que permite à ovelha ouvir um som, reconhecê-lo como a vocalização de seu cordeiro e interpretar o que ele está sentindo. As diferentes partes do cérebro têm nomes engraçados e complicados, como núcleo geniculado, amígdala ou hipocampo. Para melhor entender como a ovelha reconhece um som, os cientistas do cérebro usam técnicas, como imagem por ressonância magnética funcional [4], que só agora começam a ser empregadas em animais de fazenda.

Conclusão

As ovelhas, como outros animais, se comunicam mediante sons. Estudando seu comportamento, os etólogos mostraram que elas conseguem identificar outras por seus balidos. E fazem isso porque o balido de cada ovelha tem sua própria assinatura vocal. As ondas sonoras de um balido também podem conter informação sobre como uma ovelha está se sentindo. Os bioacústicos procuram entender essa informação a fim de ajudar os fazendeiros a detectar quando seus animais estão sentindo dor, por exemplo. Os cientistas do cérebro investigam a estrutura e a função do cérebro para compreender o papel que este desempenha na comunicação vocal. A fim de entender perfeitamente a comunicação das ovelhas, é importante que etnólogos, bioacústicos e cientistas do cérebro trabalhem em equipe. Quanto mais soubermos sobre as vidas das ovelhas, maiores serão nossas chances de aumentar o bem-estar desses animais de fazenda.

Glossário

Etólogo: Cientista que estuda o comportamento animal em seu ambiente natural.

Vocalização: Som emitido pelo órgão vocal dos animais.

Teste comportamental de dupla escolha: Teste no qual um indivíduo faz uma escolha entre duas opções.

Amplitude: A amplitude de uma onda sonora é a medida de sua energia. Determina a altura ou volume do som.

Frequência: Número de ondas por segundo.

Bioacústico: Cientista que estuda os sons emitidos por animais e as partes do corpo usadas para produzir (boca), ouvir (ouvido) e interpretar (cérebro) esses sons.

Assinatura vocal: Propriedades físicas da voz características de cada indivíduo e que permitem seu reconhecimento.

Referências

[1] Sèbe, F., Duboscq, J., Aubin, T., Ligout, S. e Poindron, P. 2010. “Early vocal recognition of mother by lambs: contribution of low- and high-frequency vocalizations.” Anim. Behav. 79:1055–66. DOI: 10.1016/j.anbehav.2010.01.021.

[2] Searby, A. e Jouventin, P. 2003. “Mother-lamb acoustic recognition in sheep: a frequency coding.” Proc. R. Soc. Lond. B Biol. Sci. 270:1765–71. DOI: 10.1098/repb.2003.2442.

[3] Mcloughlin, M. P., Stewart, R. e McElligott, A. 2019. “Automated bioacoustics: methods in ecology and conservation and their potential for animal welfare monitoring.” J. R. Soc. Interface 16:20190225. DOI: 10.1098/rsif.2019.0225.

[4] Amanamba, U., Sojka, A., Harris, S., Bucknam, M. e Hegdé, J. 2020. “A window into your brain: how fMRI helps us understand what is going on inside our heads.” Front. Young Minds. 8:484603. DOI: 10.3389/frym.2020.484603.

Citação

Siwiaszczyk, M., Love, S. e Chaillou, E. (2022). “BAA, BAA”: can sheep talk to each other?” Front. Young Minds. 10:703514. DOI: 10.3389/frym.2022.703514.

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