Biodiversidade 14 de abril de 2022, 07:00 14/04/2022

O que acontece quando os macacos são legais uns com os outros?

Autores

Jovens revisores

Resumo

Os humanos pertencem a um grupo de animais conhecidos como primatas. Esse grupo inclui os lêmures, os macacos e os gorilas. Os cientistas estudam o comportamento dos primatas há muito tempo, sobretudo para saber até que ponto eles são parecidos – ou não – conosco. Este artigo trata da pesquisa que fizemos sobre o comportamento social de um macaco conhecido como macaco-de-gibraltar. Concentramo-nos em um comportamento especial, a catação, em que um animal faz a outro o favor de limpar seu pelo, removendo sujeira, carrapatos e moscas. Descobrimos que o ato de catação deixa-os relaxados, e que a mera observação deste comportamento em outros por ter esse efeito. Essas descobertas sugerem que, para os macacos, ser legal – ou apenas ver outros animais fazendo algo legal – faz com que eles possam se sentir bem. Isso também é verdade para os humanos, de modo que nossas vidas e as de outros primatas são mais parecidas do que pensávamos.

Estresse e limpeza nos primatas

Os primatas são um grupo de animais que inclui orangotangos, macacos e lêmures (Figura 1). Os humanos são primatas do tipo de grande porte, juntamente com os chimpanzés, os bonobos, os gorilas e os orangotangos. Os cientistas descobriram muita coisa sobre o que nos torna humanos estudando o comportamento de outras espécies de primatas. Em particular, os estudos de nossos parentes primatas nos ajudaram a entender a importância de sermos legais uns com os outros.

Figura 1. Exemplos de primatas: lêmure, macaco e primata de grande porte.

Nosso trabalho nessa área concentrou-se no macaco-de-gibraltar, uma espécie que, em estado selvagem, vive nas montanhas do Marrocos e na Argélia, norte da África. Uma população foi também introduzida no rochedo de Gibraltar, na Península Ibérica (Europa). Estudamos principalmente um comportamento conhecido como catação. Na catação, um animal examina e limpa o pelo de outro membro do grupo: isso é muito comum entre primatas sociais [1]. Pensava-se antes que a finalidade desse comportamento fosse apenas remover sujeira, carrapatos e outros parasitas do pelo, mas não tardou a ficar claro que envolve bem mais do que isso. Os animais que recebem a catação, além de se beneficiarem da limpeza também se sentem bem, pois essa é uma experiência bastante relaxante! [2].

Há evidências de que, em muitas espécies de macacos, a catação diminui a frequência cardíaca [3], reduz os níveis de hormônios do estresse [4] e libera substâncias químicas chamadas betaendorfinas, que geram bem-estar [5]. Todos esses efeitos relaxantes mostram que receber catação equivale a receber uma massagem (Figura 2). Dado o prazer que os macacos sentem quando estão sendo higienizados, esse comportamento parece servir como um tipo de moeda social que pode ser trocada por futuros benefícios. Por exemplo, a catação pode ser trocada por apoio numa briga: se o macaco que higienizou outro se envolver numa briga, o que recebeu a catação provavelmente correrá em seu auxílio [6]. É um caso típico de “você me ajuda e eu te ajudo”.

Figura 2. Duas fêmeas adultas de macacos-de-gibraltar em uma sessão de limpeza.

Limpeza: fazer é tão bom quanto receber?

Decidimos observar o caso de outro ângulo para descobrir se fazer catação, e não apenas recebê-la, também pode gerar relaxamento [7]. Trabalhamos com uma população de macacos em Gibraltar e procuramos medir os níveis de estresse dos animais que vimos fazendo catação. O objetivo era descobrir se os macacos que mais faziam catação em outros se sentiam mais relaxados por isso. Para esse objetivo, empregamos métodos que não exigiam que os animais fossem capturados, prática adotada quando se quer coletar amostras de sangue, porque isso sem dúvida causaria estresse. 

O que fizemos foi coletar cocô (“amostras fecais”, como dizem os cientistas). Isso pode parecer esquisito, mas amostras fecais podem revelar o que os macacos estão sentindo. Quando eles ficam estressados, seu corpo libera hormônios chamados glucocorticoides, que, após prestarem seu serviço, são decompostos pelo fígado e um pouco do que sobra desse processo (os metabólitos) passa para as fezes. Por meio da coleta de amostras fecais, e usando processos químicos cuidadosos para medir a concentração dos hormônios de estresse, os cientistas podem determinar quais macacos estão estressados e quais estão “numa boa”.

No total, coletamos de três a seis amostras de cada uma das doze fêmeas adultas escolhidas. Também medimos quanto tempo cada animal gastava fazendo e recebendo catação. Os machos também fazem catação, mas bem menos que as fêmeas, de modo que resolvemos não estudá-los. Depois que os dados sobre limpeza e níveis de metabólitos glucocorticoides foram analisados, descobriu-se algo surpreendente: a quantidade de metabólitos glucocorticoides não estava relacionada ao tempo gasto em receber catação, e sim ao tempo gasto em fazer catação em outros. Isso significa que os macacos que mais fazem catação têm menos estresse. Os indivíduos dessa espécie, ao que parece, acham melhor dar que receber! Outra constatação importante foi que a quantidade de parceiros de catação também conta muito. Conforme descobrimos, animais que fazem catação num número maior de parceiros têm níveis de metabólitos ainda mais baixos: ou seja, são menos estressados.

O que acontece aqui? Achamos que, ao fazerem a catação muitas vezes em um número grande de parceiros, os macacos-de-gibraltar tecem uma vasta rede de possíveis apoiadores. Assim, quando um macaco se mete numa situação estressante, pode contar com a ajuda dos amigos nos quais fez catação anteriormente. Portanto, em média, os que montaram um grupo de aliados potenciais se sentem mais relaxados do que os demais.

O comportamento amistoso é contagiante

Também quisemos saber o que acontece com os macacos-de-gibraltar que se limitam a observar outros que fazem e recebem catação [8]. Essa ideia foi inspirada por pesquisas em humanos que mostraram que ver alguém agindo de forma amistosa não apenas faz as pessoas se sentirem bem como as encoraja a transmitir bons sentimentos a outras. A isso se chama contágio visual positivo e era atribuído apenas a humanos. Mas parece que os macacos também são sujeitos a esse contágio.

Resolvemos, assim, comparar o comportamento de fêmeas em duas situações: depois de terem visto outros indivíduos fazendo catação, e quando não tinham feito essa observação. Medimos um tipo de comportamento especial chamado comportamento deslocado. Entre esses comportamentos estão o de coçar-se e o de fazer catação em si mesmo, atos que, no ser humano, são sintomas de inquietação. Sabemos que o comportamento deslocado pode nos dar uma medida das emoções dos primatas: quando estão em situação estressante, eles apresentam mais comportamentos deslocados, ao passo que a redução de comportamentos desse tipo indica que estão relaxados.

Os resultados do estudo mostraram que os macacos apresentam bem menos comportamentos deslocados depois que viram outros fazendo catação. Ver os outros relaxando é relaxante! Além disso, os animais que viam outros limpando mostravam-se mais propensos a, mais tarde, fazer o mesmo. Portanto, o comportamento amistoso parece mesmo ser contagioso entre esses macacos.

Humanos, sejam bons para com seus semelhantes

Os seres humanos não fazem catação uns nos outros de forma explícita, seja na rua ou no trabalho, com o objetivo de reduzir o estresse, embora se possa considerar que uma ida ao salão de beleza ou ao massagista sejam formas de catação. Com certeza, não passamos tanto tempo fazendo catação como fazem os macacos, mas esses dois estudos podem nos ajudar a entender por que, com poucas exceções, tendemos a ser uma espécie amistosa. Ao longo de nossa história evolucionária, o ato de fazer outros se sentirem bem talvez tenha sido um comportamento vantajoso em si mesmo; e talvez até a simples observação de pessoas sendo legais umas com as outras pode ter despertado sentimentos positivos. Provavelmente, esse foi um fator muito importante ao longo da evolução humana, preservando a gentileza e o desejo de ajudar o próximo nas sociedades em que viveram nossos ancestrais. 

Glossário

Primatas: Grupo de animais que inclui os lêmures, os macacos e os primatas de grande porte (inclusive o homem). Os primatas fazem parte de um grupo maior, os mamíferos.

Catação: Higienizar o pelo de outro animal, não apenas para retirar sujeira e parasitas, mas também para obter favores mais tarde.

Betaendorfinas: Substâncias químicas do corpo que nos fazem sentir bem (a sensação agradável que sobrevém depois do exercício físico se deve a elas).

Glucocorticoides: Substâncias químicas liberadas no corpo em situação de estresse. 

Metabólitos: Quando o corpo fragmenta substâncias (o chamado metabolismo), o que sobra do processo é chamado de metabólito.

Contágio visual positivo: Quando vemos alguém se comportando com gentileza, isso nos induz a ser gentis com os outros.

Comportamento deslocado: Conjunto de comportamentos – como coçar, tocar o cabelo ou o rosto – que nos humanos são sinais de inquietação.

Referências

[1] Dunbar, R. I. M. 1991. “Functional significance of social grooming in primates.” Folia Primatol. 57:121–31. DOI: 10.1159/000156574.

[2] Russell, Y. I. e Phelps, S. 2013. “How do you measure pleasure? A discussion about intrinsic costs and benefits in primate allogrooming.” Biol. Philos. 28:1005–20. DOI: 10.1007/s10539-013-9372-4.

[3] Aureli, F., Preston, S. D. e de Waal, F. B. 1999. “Heart rate responses to social interactions in free-moving rhesus macaques (Macaca mulatta): a pilot study.” J. Com. Psychol. 113:59–65. DOI: 10.1037/0735-7036113.1.59.

[4] Gust, D. A., Gordon, T. P., Hambright, M. K. e Wilson, M. E. 1993. “Relashionship between social factors and pituitary: adrenocortical activity in female rhesus monkeys (Macaca mulatta)”. Horm. Behav. 27:318–31. DOI: 10.1006/hbeh.1993.1024.

[5] Keverne, E. B., Martensz, N. D. e Tuite, B. 1989. “Betaendorphin concentrations in cerebrospinal fluid of monkeys are influenced by grooming relationships.” Psychoneuroendocrinology 14:155–61. DOI: 10.1016/0306-4530(89)90065-6.

[6] Carne, C., Wiper, S. e Semple, S. 2011. “The reciprocation and interchange of grooming, agonistic support, feeding tolerance and aggression in semi-free-ranging Barbary macaques.”. Am. J. Primatol. 73–7. DOI: 10.1002/ajp.20979.

[7] Shutt, K., MacLarnon, A., Heistermann, M. e Sempre, S. 2007. “Grooming in Barbary macaques: better to give than receive?” Biol. Lett. 3:231–3. DOI: 10.1098/rsbl.2007.0052.

[8] Berthier, J. e Semple, S. 2018. “Observing grooming promotes affiliation in Barbary macaques.” Proc. Roy. Soc. Lond. B 285:20181964. DOI: 10.1098/rspb.2018.1964.

Citação

Semple, S. (2021). “Good Vibes: What Happens When Monkeys Are Nice to Each Other?” Front. Young Minds. 9:575499. DOI: 3389/frym.2021.575499.

Agradecemos a Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, da Universidade Federal de Alfenas, pela leitura atenta.

Encontrou alguma informação errada neste texto?
Entre em contato conosco pelo e-mail:
parajovens@unesp.br