Biodiversidade 18 de outubro de 2023, 13:11 18/10/2023

Conheça alguns importantes parasitas que atacam humanos e vivem nos trópicos

Autores

Jovens revisores

Ilustração de uma exploradora na floresta, em volta dela placas expõe a localização de alguns parasitas a sua volta.

Resumo

Todos os seres vivos neste planeta interagem, de um modo ou de outro, com outros seres vivos. Há vários termos para descrever as interações entre duas espécies diferentes. Se ambas as espécies se beneficiam da interação entre elas, ou seja, se cada espécie depende da outra para seu bem-estar, a relação é chamada de “mutualismo”. Em contraste, o termo “antagonismo” é usado para descrever a relação que beneficia apenas uma espécie, enquanto causa danos à outra. Neste artigo, discutimos um tipo específico de antagonismo chamado “parasitismo”. Vamos apresentar uma visão geral da diversidade das espécies parasitárias, discutiremos seu papel nas principais doenças tropicais e destacaremos a importância do estudo de parasitas para a área médica.

O que é um parasita?

A palavra “parasita” fará a maioria das pessoas se encolher, provavelmente porque a associam a pequenos vermes que vivem dentro delas. Isso não está completamente errado, como veremos mais tarde. No grego antigo, porém, o termo parasitos foi inicialmente usado para descrever os funcionários da comunidade que compareciam a eventos públicos e gastavam o dinheiro da comunidade em refeições e entretenimento [1]. Com o tempo, “parasita” evoluiu para descrever qualquer pessoa que vive às custas de outras. Só no século 18 o biólogo Carolus Linnæus usou o termo parasita para descrever tênias.

Hoje em dia, parasita refere-se a qualquer micro-organismo adaptado à vida em outro organismo ou sobre outro organismo, de quem obtém nutrientes enquanto causa danos a seu hospedeiro. Essa ampla definição inclui vírus e membros dos seis reinos da vida, ou seja, Archaea, Bacteria, Fungi, Protozoa, Plantae e Animalia (Figura 1). Já na parasitologia, área da biologia que estuda os organismos parasitários, o termo “parasita” aplica-se apenas a protozoários (seres constituídos de uma única célula), helmintos (vermes parasitas) e insetos. 

Figura 1. Os vários grupos de organismos parasitas. O asterisco (*) mostra os grupos de organismos que são considerados parasitas no campo da parasitologia, que é o estudo científico dos parasitas. (Esses organismos não estão desenhados em escala.) 

Parasitas são muito diferentes uns dos outros

Os parasitologistas (cientistas que estudam os parasitas) pesquisam um grupo muito diversificado de organismos. Na verdade, o número de espécies de parasitas é tão grande que não se consegue contar todas. Os parasitas podem ser divididos em grupos de acordo com muitos de seus traços, incluindo suas formas e tamanhos, suas localizações geográficas, a maneira como se movem e os organismos em que vivem. Alguns parasitas são constituídos de uma única célula (unicelulares) e são tão pequenos que medem apenas alguns micrômetros (milésimos de um metro). Por exemplo, o Toxoplasma gondii, que possui forma de banana, tem cerca de 6 micrômetros de comprimento. Em contraste, outros parasitas consistem de múltiplas células (multicelulares) e podem alcançar 25m  de comprimento. Um exemplo desse parasita é a tênia adulta. 

Os organismos parasitas são encontrados praticamente em todos os lugares, desde regiões tropicais e subtropicais até lugares gelados como a Antártica. No entanto, todo parasita precisa de um organismo que lhe forneça comida, abrigo e um local para se reproduzir. Esse organismo é chamado de hospedeiro. O hospedeiro às vezes é prejudicado por sua interação com o parasita.

Os parasitas podem ser classificados em dois grupos, dependendo de onde se instalam em seus hospedeiros. Parasitas que ficam fora do hospedeiro são chamados de ectoparasitas (Figura 2A). A pulga é um parasita que vive nos gatos. Ao contrário, os parasitas que ficam dentro de seus hospedeiros são conhecidos como endoparasitas (Figura 2B). Por exemplo, a Wuchereria bancrofti é um verme que vive no sistema linfático humano e causa uma doença conhecida como elefantíase. Entre os endoparasitas, alguns podem viver dentro das células hospedeiras e são chamados de parasitas intracelulares. O Plasmodium falciparum é um desses parasitas porque vive e cresce dentro dos glóbulos vermelhos das pessoas com malária. 

Figura 2. Ectoparasitas vs. endoparasitas. (A) Os ectoparasitas vivem fora e sobre o hospedeiro. Exemplos: a pulga do gato Ctenocephalides felis, o piolho de caranguejo que vive na pele humana. (B) Os endoparasitas vivem dentro do hospedeiro. Exemplos: a Dirofilaria immitis, uma lombriga que vive dentro dos gatos e causa a doença dirofilariose, os ancilostomídeos dentro das entranhas humanas e o Plasmodiun falciparum, um parasita que vive dentro dos glóbulos vermelhos humanos. 

Os parasitas também variam no número de hospedeiros dos quais precisam para sobreviver. Enquanto certos parasitas precisam de apenas um hospedeiro, outros precisam de muitos para completar seus ciclos de vida. O hospedeiro onde o parasita completa sua reprodução sexual é chamado de hospedeiro definitivo. 

Como os parasitas sobrevivem em seus hospedeiros? O parasitismo é uma batalha constante pela sobrevivência entre o parasita e seu hospedeiro. Como os parasitas dependem de seu hospedeiro para obter comida e abrigo, não devem destruí-lo até estarem prontos para passar para o próximo. Enquanto isso, os hospedeiros devem se proteger do perigo, desafiando constantemente os organismos parasitas ao criar para eles condições desfavoráveis. O hospedeiro tentará privar os parasitas de nutrientes, matando-os de fome, ou atacará o inimigo com suas fortes defesas imunológicas. Para viver em um ambiente tão difícil, cada parasita desenvolveu diferentes estratégias de sobrevivência. Ao longo de milhões de anos de evolução, os parasitas desenvolveram inúmeras características interessantes para ajudá-los a se adaptar a ambientes específicos [1]. Aqui estão algumas delas. 

1.Fugindo dos ataques dos hospedeiros

Cada parasita é desafiado constantemente pelas defesas do hospedeiro e por outros eventos desfavoráveis, tais como a privação de nutrientes. Os parasitas aperfeiçoaram modos únicos para responder aos ataques de seus hospedeiros. Por exemplo, o Trypanosoma brucei e o P. falciparum, que causam doenças em humanos, podem mudar sua aparência trocando as proteínas em suas superfícies e, assim, evitando o reconhecimento pelo sistema imunológico do hospedeiro. Outros parasitas adquiriram a capacidade de matar diretamente as células imunes humanas. 

2. Adquirindo novas estratégias reprodutivas

Os parasitas evoluíram para viver e se reproduzir no ambiente de um hospedeiro específico. Dá-se a isso o nome de especialização do hospedeiro. Essa estratégia permite que o parasita seja mais bem-sucedido dentro de seu hospedeiro, a especialização do hospedeiro também tem suas armas, incluindo a redução das chances de o parasita encontrar um parceiro. Os organismos parasitas evoluíram de modos diferentes para resolver esse problema. Para as espécies de Schistosoma, depois que os vermes fêmea e macho se encontram no hospedeiro, ficam juntos para sempre, a menos que outro macho esteja presente nas proximidades. Já as tênias usam uma estratégia de reprodução chamada hermafroditismo. No hermafroditismo, os órgãos reprodutivos masculinos e femininos estão localizados no mesmo verme, o que elimina a necessidade de encontrar um parceiro. 

3. Limitando os danos ao hospedeiro

Outro problema com a especialização do hospedeiro está diretamente ligado à própria natureza dos parasitas. Eles prejudicam seus hospedeiros. Se o parasita for muito destrutivo para seu hospedeiro, este pode morrer antes que o parasita complete seu ciclo de vida. Isso pode levar à morte do parasita ou forçá-lo a procurar um novo hospedeiro. Assim, do ponto de vista dos parasitas, é importante limitar o dano que causam para que o hospedeiro fique vivo durante o maior tempo possível. Os parasitas elaboraram estratégias para resolver esse problema. Por exemplo, quando há muitos vermes presentes em um hospedeiro, eles crescem pouco para não sobrecarregar e destruir o hospedeiro. Mas, se houver apenas alguns deles, cada verme ficará maior, pois haverá menos competição pelos recursos do hospedeiro e este não será esgotado tão facilmente. 

Efeitos prejudiciais dos parasitas tropicais na saúde humana

Há diversos tipos de parasitas que causam doenças em humanos. As doenças parasitárias são mais comuns nos países em desenvolvimento, nas regiões tropicais e subtropicais do mundo (Figura 3). Esses lugares costumam ser quentes e úmidos, condições adequadas para o crescimento de muitos parasitas. Além disso, os países tropicais são frequentemente afetados por pobreza, falta de saneamento, instalações de saúde inadequadas e baixo nível educacional. Esses fatores, frequentemente, aumentam a transmissão de doenças parasitárias por meio de insetos, água ou solo contaminados e dificultam seu controle ou eliminação. Abaixo, descrevemos algumas doenças parasitárias importantes nas regiões tropicais (Tabela 1). 

Figura 3. Distribuição de doenças parasitárias importantes. Os continentes são mostrados em cores diferentes. Você pode ver a chave no canto superior à direita. Os pontos representam doenças parasitárias. A chave para as doenças está mais abaixo no canto esquerdo. O tamanho dos pontos mostra o quanto uma doença é comum em dado continente/região – quanto maior o ponto, mais pessoas infectadas com a doença. Você pode facilmente ver, a partir desse desenho, que muitas doenças parasitárias ocorrem nas regiões tropicais do mundo. (Não desenhado em escala.) 
Tabela 1. Sumário de doenças parasitárias tropicais comuns. *Do Center of Disease Control and Prevention em https://www.cdc.gov/parasites. **Número de novos casos todo ano por causa da natureza crítica da doença. 

Malária 

A malária é uma das doenças mais comuns na África e em outros lugares tropicais, onde causa milhões de mortes todos os anos. O P. falciparum é o protozoário responsável por essa doença. A fêmea do mosquito Anopheles transmite o parasita quando suga o sangue de um ser humano. O P. falciparum infecta glóbulos vermelhos, que são então destruídos ou alterados de tal forma que se aglomeram. Esses efeitos sobre os glóbulos vermelhos resultam em suprimento insuficiente para vários órgãos e tecidos, o que pode levar à morte da pessoa infectada. 

Leishmaniose

A leishmaniose é transmitida aos seres humanos por flebotomíneos fêmeas, que picam e liberam organismos Leishmania no sangue. Ao contrário do P. falciparum, a Leishmania prefere os glóbulos brancos, especialmente os chamados macrófagos. Normalmente, o parasita causa uma doença de pele leve. No entanto, pode às vezes invadir e prejudicar os órgãos internos, causando mais doenças severas ou até mesmo a morte. 

Doença do sono africana

Como o próprio nome sugere, a doença do sono africana é bastante comum na África, onde afeta cerca de 10.000 pessoas todos os anos. Ela é causada pelo Trypanosoma brucei, um protozoário transmitido pela picada das moscas tsé-tsé. A infecção por esse parasita freqüentemente leva à inflamação dos vasos sanguíneos em múltiplos órgãos. A inflamação do coração pode levar à morte por insuficiência cardíaca. Já a inflamação do cérebro pode causar convulsões e sonolência excessiva. Devido à sonolência é que essa enfermidade recebe o nome de “doença do sono”. 

Doença de Chagas

A doença de Chagas é causada por outro membro dos tripanossomas, o Trypanosoma cruzi. Ao contrário da doença do sono africana, a doença de Chagas é vista com mais frequência na América Latina, onde atualmente afeta oito milhões de pessoas. O T. cruzi é liberado das fezes do barbeiro, cuja picada na pele cria uma entrada para o parasita na corrente sanguínea. Os parasitas se espalham por todo o corpo, danificam vários órgãos e causam inflamação no coração e no cérebro. 

Esquistossomose

Também chamada de bilharziose, a esquistossomose afeta atualmente mais de 200 milhões de pessoas na África, Leste Asiático e América do Sul. A esquistossomose é causada por platelmintos chamados Schistosoma e é transmitida pela água. As larvas do verme presentes na água penetram na pele, entram na corrente sanguínea e fixam residência nos intestinos ou na bexiga. Lá, as larvas do verme se tornam adultas e põem ovos que ativam o sistema imunológico humano e causam inflamação persistente. Com o tempo, a ativação imune persistente pode levar ao câncer. 

Filariose

Usualmente chamada de elefantíase, a filariose é uma doença que causa um acentuado desfiguramento do corpo. Ela é transmitida por mosquitos e, atualmente, afeta cerca de 120 milhões de pessoas. As larvas da Wuchereria bancrofti, a lombriga responsável por essa doença, são liberadas na corrente sanguínea a partir da picada de um mosquito. As larvas rapidamente migram para o sistema linfático, onde crescem e se tornam adultas. Quando as lombrigas ficam grandes, impedem o fluxo de fluidos através dos tecidos, de modo que eles se acumulam ali e causam um inchaço grotesco dos membros e do escroto. 

Cegueira dos rios

Causada por outra lombriga, a Onchocerca volvulus, a oncocercose atualmente afeta mais de 25 milhões de pessoas, principalmente na África e na América do Sul. A O. volvulus é transmitida por varejeiras, insetos que vivem e se reproduzem principalmente nas imediações de rios e riachos. Quando introduzida na pele de um ser humano, a O. volvulus pode ficar lá e se tornar adulta. A presença desses vermes na pele desencadeia uma resposta imune e causa inflamação na pele. Em outros casos, os parasitas migram para os olhos, onde causam sérios danos que levam à cegueira. A oncocercose é uma causa de cegueira muito comum em países tropicais. 

Infecções intestinais por lombrigas

Ancilostomídeos, como o Necator americanos e os ascarídeos, como Ascaris lumbricoides, são vermes comuns em regiões com saneamento precário. Os ovos de A. lumbricoides são infecciosos e podem ser ingeridos com alimentos que contenham solo contaminado, enquanto os ovos de ancilostomídeos devem eclodir em larvas no solo antes de penetrarem na pele humana. Ambos os tipos de vermes causam desnutrição, porque muitas vezes vivem dentro do intestino, onde competem com o hospedeiro por nutrientes. Em casos graves, os ancilostomídeos causam anemia, porque sugam o sangue de seus hospedeiros. Má nutrição e anemia nas crianças podem levar à problemas de desenvolvimento mental e físico. Além disso, A. lumbricoides, também, pode causar bloqueio intestinal, o que resulta em intensas dores abdominais na pessoa infectada. 

As infecções parasitárias  podem gerar benefícios ocultos?

Por definição, os parasitas são prejudiciais aos seus hospedeiros. No entanto, algumas infecções parasitárias podem ter efeitos protetores contra outras doenças, como alergias e doença inflamatória intestinal crônica (DII) [1]. Especificamente, infecções de longo prazo com vermes parasitas mostraram diminuir alergias e sintomas DII. Isto é porque vermes parasitas têm desenvolvido estratégias para bloquear partes do sistema imunológico humano. Essas partes do sistema imunológico, ou seja, os eosinófilos e os anticorpos IgE, são também os principais responsáveis pelas alergias, DII e muitas outras doenças inflamatórias! De fato, um estudo realizado na África e na América do Sul revelou que as crianças sem infecções parasitárias eram mais suscetíveis às alergias. 

Estas recentes descobertas inspiraram muitos cientistas e médicos ao redor do mundo a explorar maneiras para que as infecções parasitárias possam atualmente ser úteis a algumas condições humanas. O objeto é usar esses benefícios para projetar novos tratamentos para as doenças inflamatórias. 

Conclusão

Os parasitas são um grupo diverso e complexo de organismos que inclui protozoários, helmintos e insetos. Os parasitas têm um relacionamento complicado e em constante evolução com seus hospedeiros e, esse relacionamento acaba sendo prejudicial para o hospedeiro. Alguns organismos parasitários causam as maiores doenças em humanos, especialmente em regiões tropicais com condições favoráveis ao crescimento e transmissão de parasitas aos hospedeiros. Agradecemos aos avanços científicos e a nossa compreensão de organismos parasitários que se expandiu nos anos recentes. No entanto, o campo da parasitologia permanece aberto e atraente para muitos. Nós apenas arranhamos a ponta do iceberg. 

Glossário

Parasita: Um micro-organismo que vive em ou em outro organismo do qual obtém nutrientes e causa danos ao processo. 

Micro-organismo: Um organismo que é muito pequeno para ser visto a olho nu. 

Hospedeiro: Um organismo que fornece comida e abrigo para parasitas. 

Sistema Linfático: Um sistema de vasos que drena a linfa (fluido acumulativo nos tecidos) dentro do sistema circulatório. 

Hospedeiro Definitivo: O hospedeiro, no qual, um parasita completa a sua reprodução sexual. 

Hermafroditismo: Uma estratégia reprodutiva em que os órgãos sexuais femininos e masculinos estão localizados no mesmo indivíduo. 

Macrófago: Um tipo de glóbulo branco que mata patógenos envolvendo-os, um processo chamado fagocitose. 

Eosinófilos: Um tipo de glóbulo branco que são recrutados para combater helmintos e desempenham um papel nas alergias. 

Referência

[1] Lucius, R., Loos-Frank, B., Lane, R. P., Poulin, R., Roberts, C., and Grencis, R. K. 2017. The Biology of Parasites. Weinheim: Wiley-VCH. 

Citação

Cao B and Guiton P (2018) Important Human Parasites of the Tropics. Front. Young Minds. 6:58. doi: 10.3389/frym.2018.00058 

Encontrou alguma informação errada neste texto?
Entre em contato conosco pelo e-mail:
parajovens@unesp.br