Saúde Humana 30 de novembro de 2022, 12:11 30/11/2022

Quando passear pelo parque, tome cuidado com os carrapatos

Autores

Jovens revisores

Resumo

Os carrapatos são um tipo de organismo, encontrado em todo o mundo, que se alimenta de sangue. Alimentam-se de diferentes animais hospedeiros, inclusive os seres humanos. Em geral os hospedeiros nem percebem as picadas de carrapatos, porque a saliva deles contém moléculas que previnem a inflamação (inchaço) e a dor. Ao se manterem sem serem detectados pelos hospedeiros, os carrapatos muitas vezes se alimentam por vários dias sem interrupção. Isso causa grandes problemas, pois, enquanto sugam o sangue, eles podem transmitir organismos causadores de doenças. Este artigo traz informações sobre como os carrapatos evoluíram, sua anatomia, seu ciclo de vida, as doenças que transmitem e, por fim, como prevenir suas picadas.

Os tipos de carrapatos

Existem cerca de oitocentos tipos (espécies) de carrapatos que  podem ser divididos em três famílias principais, chamadas Ixodidae, Argasidae e Nuttalliellidae. Os Ixodidae são também conhecidos como carrapatos duros e a estrutura que usam para sugar o sangue (chamada de capitulum) é visível. Os Argasidae recebem o nome de carrapatos moles e seu capitulum não é visível. A maior diferença entre um carrapato duro e um mole é mostrada na Figura 1. Os Nuttalliellidae são considerados o elo evolutivo entre carrapatos moles e duros.

Este artigo se concentra nos carrapatos duros porque são eles que espalham a maioria das doenças nos seres humanos em todo o mundo. Inventamos um nome para todas as seiscentas e cinquenta espécies de carrapatos duros: Ixodes solitarius. Usaremos esse nome ao longo do artigo para facilitar a referência a todos os carrapatos duros, mas lembre-se de que não existem espécies reais de carrapatos com esse nome.

Figura 1. A principal diferença estrutural entre carrapatos duros A e moles B. A figura mostra as costas dos carrapatos. A principal diferença entre os carrapatos duros e os moles é a visibilidade do capitulum, que aparece nos duros, mas não nos moles. 
 

Os carrapatos são primos dos mosquitos e irmãos das aranhas e escorpiões 

O Ixodes solitarius surgiu no mundo cerca de 250 milhões de anos atrás (MAA) [1]. É muito difícil imaginar como seriam os ancestrais do I. solitarius. Já que não podemos viajar no tempo, os cientistas usam um tipo de análise baseada em computadores conhecida como filogenia. A filogenia é um método que mostra como as espécies hoje existentes estão relacionadas a outras que existiram no passado, analisando as semelhanças e diferenças em seus genes (DNA) ou suas características corporais.

O cladograma na Figura 2 mostra que mosquitos, carrapatos, aranhas e escorpiões tiveram um único ancestral comum cerca de 700 MAA [2]. A estrutura corporal dos carrapatos indica que eles são mais intimamente relacionados com aranhas e escorpiões do que com mosquitos. Uma maneira fácil de constatar essa relação é que os carrapatos adultos, aranhas e escorpiões têm oito patas, enquanto mosquitos só têm seis. No entanto, é importante notar que o I. solitarius tem oito patas apenas quando é jovem ou adulto, pois quando sai do ovo tem apenas seis, como os mosquitos. 

Figura 2. A figura mostra um cladograma com nossa visão atual da relação entre carrapatos, mosquitos, aranhas e escorpiões. As linhas verticais e horizontais representam as conexões evolucionárias entre esses organismos, que partilham um ancestral comum no passado, ~700 MAA. A relação entre esses grupos foi extraída de Jeyaprakash e Hoy [1]. 
 

Os carrapatos e seu ambiente

A maneira como ocorre o desenvolvimento dos carrapatos, e como se dá sua interação com seu ambiente, é complicada, mas é importante entender como eles se desenvolvem e procuram por hospedeiros. As informações sobre como os carrapatos vivem servem de base para entender a epidemiologia das doenças que eles transmitem, ou seja, o modo como essas doenças se espalham e como podemos controlá-las.

Uma vez que o sangue é o que serve a estes animais de alimento, dado que os carrapatos se alimentam de sangue, precisam ingerir grande quantidade dele para se desenvolver completamente. Uma fêmea adulta de I. solitarius pode ingerir de 5 a 10 vezes seu peso em sangue numa única “refeição”. Depois que a fêmea se alimenta de um hospedeiro e se acasala, deixa-se cair no chão e encontra abrigo em folhas ou outra matéria natural para pôr milhares de ovos.

A temperatura controla o desenvolvimento do ovo. Quanto mais alta a temperatura, mais rápido os ovos se desenvolvem. Há uma temperatura ideal para cada espécie, mas 20ºC é uma boa temperatura média para o desenvolvimento dos ovos. Temperaturas mais altas que 20°C aumentam a chance de que os ovos venham a morrer. O carrapato imaturo que sai do ovo é chamado de larva. A larva deve, então, encontrar um hospedeiro. [Nota: o ciclo de vida de um carrapato tem três etapas de desenvolvimento após a eclosão do ovo: larva, ninfa e adulto (macho ou fêmea). Você pode ver o ciclo de desenvolvimento do carrapato no vídeo que acompanha a recente publicação por Kocan e coautores [3].] 

Carrapatos não são insetos e não podem voar. Eles só podem se movimentar a longas distâncias enquanto se alimentam de um hospedeiro, porque o hospedeiro se movimenta em seu ambiente. As larvas e ninfas, que são menores, preferem se alimentar de pequenos hospedeiros como roedores, pássaros ou lagartos. Carrapatos adultos precisam ingerir maiores quantidades de sangue; portanto, têm de se alimentar de animais grandes como bois, veados, cavalos ou humanos. Para encontrar um hospedeiro, o I. solitarius sobe na vegetação, como a grama. Esse comportamento é regulado pelo clima. Quando o carrapato está na vegetação esperando por um hospedeiro, fica exposto ao sol e ao vento, perdendo água rapidamente. Para se reidratar, deve descer novamente ao solo. Se a umidade (quantidade de água no ar) for alta, o carrapato poderá permanecer na vegetação, à espera de um hospedeiro, por mais tempo. 

Em geral, os carrapatos não são exigentes em matéria de hospedeiros e, enquanto esperam na vegetação, se prendem a qualquer “vítima” adequada que passe por perto. É por isso que os seres humanos correm riscos ao caminhar pela floresta ou jardim sem usar algum item de proteção, como meias ou calças compridas. Uma vez que se ligue ao hospedeiro, o carrapato encontrará um bom lugar para se alimentar e inserirá suas partes bucais para começar a sugar sangue. As partes bucais dos carrapatos incluem três componentes principais conhecidos como hipóstomo, quelícera e palpos (Figura 3). Enquanto o hipóstomo e a quelícera são completamente inseridos na pele do hospedeiro, os palpos ficam de fora. O processo de alimentação pode levar de três a quatro dias para as larvas e ninfas pequenas e até dez dias para as fêmeas grandes. 

Figura 3 – Quando se alimentam, os carrapatos introduzem completamente o hipóstomo e as quelíceras na pele. Entretanto, os palpos permanecem fora da lesão de alimentação. 

A saliva dos carrapatos serve como camuflagem

A saliva do carrapato é secretada pelas glândulas salivares localizadas nas partes bucais. As substâncias dessa saliva ajudam o carrapato a combater as respostas normais do hospedeiro, como coagulação do sangue e inflamação. Uma substância salivar do carrapato que interfere na coagulação do sangue é chamada de peptídeo de Kunitz. Os peptídeos de Kunitz são pequenas moléculas que também são secretadas por organismos venenosos, como escorpiões e aranhas, e constituem um importante componente da saliva do carrapato [4]. Os peptídeos salivares de Kunitz interferem na coagulação do sangue, permitindo que o carrapato absorva sua refeição. 

A lipocalina é outra substância salivar do carrapato que interfere na inflamação. Você já foi picado por um mosquito? Dói e deixa um caroço na pele? Sempre que você é arranhado, picado ou mordido, seu corpo geralmente responde produzindo uma substância chamada histamina, que causa inflamação. Uma tática usada pelos carrapatos enquanto sugam o sangue, para evitar uma resposta inflamatória do hospedeiro, é secretar lipocalinas, as quais bloqueiam a histamina do hospedeiro. Portanto, a picada do carrapato não causa inchaço doloroso e coceira, como a do mosquito. 

É interessante mencionar que essas propriedades da saliva do carrapato podem ser úteis para fins médicos. Como os peptídeos de Kunitz interferem na coagulação do sangue, são usados, por exemplo, em cirurgias de coração aberto, quando os médicos querem evitar a formação de coágulos sanguíneos no paciente. Respostas inflamatórias indesejadas incluem alergias e asma; portanto, lipocalinas de carrapato que bloqueiam a histamina costumam ser úteis no tratamento dessas condições. 

Ao picarem, os carrapatos transmitem doenças infecciosas

Durante a alimentação, o I. solitarius pode transmitir diferentes organismos causadores de doenças, chamados patógenos. Esses patógenos são principalmente bactérias e vírus, mas também podem ser organismos maiores chamados protozoários e helmintos. A maioria dos patógenos de carrapatos é transmitida pela saliva. Uma exceção é um organismo chamado Hepatozoon canis, transmitido quando um animal come um carrapato infectado. Doenças transmitidas a humanos por picadas de carrapatos incluem a doença de Lyme, a anaplasmose granulocítica humana e uma forma de encefalite.

A doença de Lyme, causada pela bactéria Borrelia burgdorferi, está se tornando mais comum (por exemplo, cerca de 300 mil americanos a cada ano são infectados por ela). Os sintomas típicos da doença de Lyme incluem febre, dor de cabeça, fadiga e uma erupção cutânea em forma de “olho de boi”. No entanto, se não for tratada, a doença de Lyme pode produzir sintomas mais severos e complicações que incluem artrite, sintomas neurológicos e problemas no coração.

A anaplasmose granulocítica humana é causada pela bactéria Anaplasma phagocytophilum. Seus primeiros sintomas costumam aparecer dentro de uma a duas semanas após a picada de um carrapato infectado e incluem febre, dor de cabeça, dores musculares, calafrios, náusea, dor abdominal, tosse e confusão mental.

Finalmente, a encefalite transmitida por carrapatos é causada por um vírus, que ataca diretamente o cérebro e/ou as membranas cerebrais (meninges). Essa é uma doença comum na Europa e inicialmente os sintomas são inespecíficos, podendo ser confundidos com os de outras doenças comuns que provocam febre, dor de cabeça ou vômito. Mais tarde, à medida que a doença progride e o vírus invade o cérebro, aparecem sintomas mais específicos, incluindo confusão mental, torcicolo, distúrbios sensoriais e/ou paralisia. 

Embora ainda não entendamos tudo sobre como os carrapatos interagem com seus hospedeiros e seus patógenos [5], os avanços nesse campo serão auxiliados pelo fato de que o genoma (toda a sequência de DNA de um organismo que se encontra no núcleo da célula) de um tipo de carrapato foi sequenciado ou decodificado. Esse carrapato é o Ixodes scapularis, importante por transmitir tanto a doença de Lyme quanto a anaplasmose granulocítica humana [6]. 

Como evitar picadas de carrapatos 

A melhor maneira de evitar picadas de carrapatos é ficar longe deles. Exemplos de como evitar carrapatos podem ser encontrados no site dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC)1.

No Hemisfério Norte, cerca de 80% das picadas de carrapatos são relatadas entre maio e setembro, quando eles estão muito ativos. Portanto, deve-se tomar mais cuidado ao caminhar em áreas arborizadas e bosques durante esse período. Normalmente, passear pela mata é mais prazeroso nessa época, então permaneça na trilha, bem no meio. Também é recomendável pulverizar repelentes de insetos nas roupas e na pele exposta ao fazer caminhadas em áreas de risco. Repelentes que contêm substâncias chamadas DEET (N, N-dietil-m-toluamida) ou permetrina são bons para afastar carrapatos. Depois de uma caminhada por áreas arbustivas e bosques, examine seu corpo meticulosamente diante do espelho. As ninfas de I. solitarius podem usualmente ser encontradas nas pernas e braços, enquanto os adultos preferem as costas, pescoço, cabeça, virilha e genitais [7]. 

Glossário 

Capitulum: Parte da boca do carrapato que inclui o hipostômio, duas quelíceras e dois palpos. 

Filogenia: Diagrama que mostra a história do desenvolvimento de alguma coisa. Em biologia, refere-se frequentemente a um diagrama que descreve a história evolucionária de proteínas e organismos. 

Cladograma: Representação gráfica de uma filogenia. 

Epidemiologia: Estudo de como as doenças se espalham e como podem ser controladas. 

Peptídeo de Kunitz: Pequena proteína (com menos de 60 aminoácidos) que geralmente inibe enzimas deteriorantes conhecidas como proteases. 

Lipocalina: Família de proteínas envolvida no transporte de pequenas moléculas orgânicas. 

Histamina: Molécula orgânica naturalmente presente em animais, em geral envolvida na inflamação. 

Patógenos: Micro-organismos prejudiciais a humanos e animais. 

Genoma: Sequência inteira de DNA de um organismo, encontrada no núcleo das células. 

Conflito de interesses 

Os autores declaram que a pesquisa foi conduzida sem qualquer relação financeira ou comercial que possa gerar conflito de interesses. 

Agradecimentos

AC-C contou com o apoio do Ministère de l’Éducation Supérieure et de la Recherche e do Institut Pasteur de Lille. JV, com o apoio do projeto CZ.1.07/2.300/30.0032, cofinanciado pelo European Social Fund, pelo orçamento do governo da República Checa e pelo projeto LO1218, com a ajuda financeira do MEYS da República Checa, dentro do programa NPU I. 

Nota de rodapé

[1] htttp://www.cdc.gov/ticks/avoid/on_people.html

Referências

[1] Jeyaprakash, A. e Hoy, M. A. 2009. “First divergence time estimate of spiders, scorpions, mites and ticks (subphylum: Chelicerata) inferred from mitochondrial phylogeny.” Exp. Appl. Acarol. 47(1):1–18. DOI: 10.1007/s10493-008-9203-5. 

[2] Sanders, K. L. e Lee, M. S. Y. 2010. “Arthropod molecular divergence times and the Cambrian origin of pentastomids.” Syst. Biodivers. 8(1): 63–74. DOI: 10.1080/14772000903562012.

[3] Kocan, K. M., de la Fuente, J. e Coburn, L. A. 2015. “Insights into the development of Ixodes scapularis: a resource for research on a medically important tick species.” Parasit. Vectors 8:592. DOI: 10.1186/s13071-015-1185-7. 

[4] Cabezas-Cruz e Valdés, J. J. 2014. “Are ticks venomous animals?” Front. Zool. 11:47. DOI: 10.1186/1742-9994-11-47. 

[5] de la Fuente, J., Villar, M., Cabezas-Cruz, A., Estrada-Peña, A., Ayllón, N. e Alberdi, P. 2016. “Tick-host-pathogen interactions: conflict and cooperation.” PLoS Pathog. 12(4):e1005488. DOI: 10.1371/journal.ppat.1005488.

[6] Gulia-Nuss, M., Nuss, A. B., Meyer, J. M., Sonenshine, D. E., Roe, R. M., Waterhouse, R. M. et al. 2016. “Genomic insights into the Ixodes scapularis tick vector of Lyme disease.” Nat. Commun. 7:10507. DOI: 10.1038/ncomms10507. 

[7] Wilhelmsson, P., Lindblom, P., Fryland, L., Nyman, D., Jaenson, T. G., Forsberg, P. et al. 2013.” “Ixodes ricinus ticks removed from humans in Northern Europe: seasonal pattern of infestation, attachment sites and duration of feeding.” Parasit. Vectors 6:362. DOI: 10.1186/1756-3305-6-362. 

Citação

Cabezas-Cruz, A., Estrada-Peña, A., Valdés, J. e de la Fuente, J. (2016) “Be aware of ticks when strolling through the park.” Front. Young Minds. 4:24. DOI: 10.3389/frym.2016.00024. 

 

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