A Terra e seus Recursos 14 de abril de 2022, 07:00 14/04/2022

Que podemos fazer para impedir a mudança climática?

Autores

Jovens revisores

Pai e filho estão felizes e andam de patinete em frente sua casa, conversando sobre o planeta Terra. Ao fundo, o carro da família está com uma placa de Vende-se

Resumo

A mudança climática é um dos problemas mais graves que a humanidade enfrenta hoje, mas até agora os progressos feitos para impedi-la têm sido lentos. Simulações do clima mostram que a Terra só vai parar de esquentar quando alcançarmos a “neutralização” das emissões. Isso significa que as emissões de dióxido de carbono (CO2) são neutralizadas pela remoção da atmosfera de uma quantidade equivalente de gases de efeito estufa. Esforços mundiais para chegar à neutralização em 2050 são necessários a fim de prevenir alguns dos piores efeitos da mudança climática. Mas isso exige mudanças também em nossa sociedade. Há certas coisas que todos podemos fazer para desacelerar a mudança climática; porém, as mudanças maiores têm de vir do modo como nossos negócios e países são conduzidos, das fontes de onde tiramos nossa energia, do modo como viajamos e do quanto nós consumimos ou jogamos fora. Se agirmos rápido, poderemos garantir o bem-estar futuro de bilhões de pessoas no mundo inteiro.

Nosso clima futuro

Em 2015, quase todos os países assinaram o Acordo de Paris. O objetivo desse acordo é limitar o aquecimento global mantendo o aumento da temperatura média mundial abaixo de 2ºC e, se possível, apenas 1,5ºC acima da temperatura média do final do século XIX. Esse nível de aquecimento parece pequeno, mas pode causar problemas enormes. Os cientistas sabem que os extremos climáticos, como enchentes, ondas de calor e secas vão se tornando mais frequentes e intensos quando o aquecimento aumenta. Esses acontecimentos climáticos podem redundar em quebras de safras e preços mais altos de alimentos e, portanto, fazer com que um número maior de pessoas passe fome. O nível do mar pode subir devido ao derretimento do gelo da terra e à expansão da água mais quente do oceano. Isso vai colocar em risco milhões de pessoas das cidades costeiras e das ilhas pequenas. Quanto maior o aquecimento, maiores serão esses impactos. Cada décimo de grau importa.

O planeta já aqueceu em 1,2ºC desde o fim do século XIX e os efeitos já são sentidos. Para conseguir manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC, precisamos reduzir nossas emissões de dióxido de carbono (CO2) pela metade até 2030 e a zero até 2050 (Figura 1). São objetivos ambiciosos, que exigem mudanças urgentes e de longo alcance em nossa sociedade e economia. As promessas feitas pelos países no Acordo de Paris ainda não são suficientes para atingir esses objetivos, o que poderá resultar em um aquecimento de cerca de 3ºC ao final deste século (linha azul na Figura 1).

Figura 1. Temperaturas globais previstas caso alcancemos a neutralização em 2050 (roxa) ou 2075 (verde). A tendência atual é mostrada em azul. As promessas feitas pelos países no Acordo de Paris não são suficientes para atingir esse objetivo em 2050, o que poderá resultar em um aquecimento de cerca de 3ºC ao final deste século.

A boa notícia é que a futura mudança climática depende sobretudo das escolhas que fazemos hoje. No entanto, essas escolhas não são fáceis e a rapidez com que precisamos mudar nosso mundo a fim de limitar a mudança climática não se parece em nada com o que já vimos.

Muitas atividades humanas se baseiam na queima de combustíveis fósseis para obtenção de energia e isso libera CO2. Em 2019, emitimos 42 bilhões de toneladas de CO2. Apesar da crise do coronavírus, as emissões caíram apenas 7% em 2020 [1]. Adotar energias renováveis (como as produzidas por turbinas eólicas e painéis solares) e substituir veículos a gasolina e diesel por outros a energia elétrica nos ajudará a reduzir as emissões de CO2. Além disso, precisamos remover CO2 da atmosfera, processo conhecido como emissões negativas. Alcançar globalmente a neutralização – ou seja, remover da atmosfera a mesma quantidade de CO2 que emitimos – exigirá ação individual e coletiva.

Que podemos fazer?

Há muitas coisas que você, como indivíduo, pode fazer para reduzir seu impacto no clima. A quantidade de CO2 que cada um de nós emite na atmosfera, todos os anos, chama-se pegada de carbono. Em média, cada pessoa emite 6,7 toneladas de CO2 por ano, mas isso varia muito dentro dos países e entre eles. Em geral, pessoas mais ricas em países mais prósperos são responsáveis pela maior parte do CO2 emitido. A pesquisa mostrou que a quantidade de energia exigida para se viver confortavelmente é, na verdade, muito pequena [2]. Se toda pessoa, no mundo, tivesse esse mesmo padrão confortável de vida, isso resultaria em uma melhora na qualidade de vida de bilhões de habitantes dos países em desenvolvimento – mas, para isso, as pessoas e os países ricos teriam de consumir e desperdiçar menos.

As cidades deveriam ser adaptadas para favorecer mais a caminhada, o ciclismo e o transporte público. Modificar a maneira como viajamos é o melhor que podemos fazer para reduzir nossas pegadas de carbono. Esquecer o carro, por exemplo, pode economizar até 5 toneladas de CO2 emitidas por pessoa, todos os anos [3], e isso é bom também tanto para nossa saúde quanto para a qualidade local do ar. Um voo a longa distância acrescenta muito CO2 à atmosfera. Isso pode ser reduzido caso você viaje de trem sempre que possível ou passe férias em uma localidade mais perto de sua casa. As cidades deveriam ter melhores redes de transporte e ser construídas ou modificadas para garantir mais eficiência energética, ficando assim mais frias no verão e mais quentes no inverno.

Podemos também reduzir nosso impacto no clima escolhendo onde gastar nosso dinheiro. Procure comprar de empresas sustentáveis, que não agridem o ambiente. Tente, por exemplo, usar a eletricidade de um fornecedor que usa 100% de energia renovável. As empresas que usam energia renovável retiram-na de painéis solares e turbinas eólicas. Acender as luzes de casa somente quando necessário também reduz nossas emissões… e nossas contas! Comer menos carne (sobretudo bovina) e laticínios, evitando o desperdício, são também eficientes ações individuais que podem significar até duas toneladas de emissões de CO2 a menos por pessoa, a cada ano.

Chegam até aí as ações individuais e não devemos nos sentir mal se nossos estilos de vida não nos permitirem algumas delas. Por exemplo, nem todos podem comprar um carro elétrico ou instalar painéis solares no teto de sua casa. Lembre-se, porém, de que suas ações podem inspirar outros. Use sua voz! Conversar sobre mudança climática com seus amigos, familiares e colegas ajuda realmente a despertar a consciência ecológica e a motivar futuras ações.

Grandes empresas, prefeitos, governadores e presidentes são as instâncias que podem operar as grandes mudanças de que precisamos. Como influenciá-las? Há muitas maneiras de se fazer ouvir pelos governos eleitos. Saiba quais são os compromissos ecológicos de cada candidato ou líder político de sua cidade, Estado ou país. Discuta assuntos de clima com os adultos de seu convívio, pois isso pode influenciá-los no modo como votam. E vote certo quando você for eleitor! Talvez ainda não tenha idade para votar, mas pode exercer uma considerável influência. O movimento grevista #Fridays4Future, iniciado pela estudante Greta Thunberg, de 16 anos, ajudou a revelar o descontentamento dos jovens com a inação dos adultos em relação à mudança climática. 

Protestos em grande escala no mundo inteiro despertaram a atenção para a crise climática na arena política. Muitos governantes municipais e estaduais já reconheceram o problema e declararam “emergência climática”, que exige ação urgente. A ação coletiva se revelou muitíssimo útil. Somente no nível da sociedade é que conseguiremos realizar mudanças em prol de um futuro melhor.

No nível nacional, os países estão passando por transições rumo a fontes de energia limpas e prometendo chegar à neutralização (Figura 2). Esses países precisam reduzir o mais rapidamente possível suas emissões de gases do efeito estufa; quanto às emissões inevitáveis (como as dos aviões), devem ser contrabalançadas por emissões negativas. O mundo só será bem-sucedido em alcançar a neutralização em 2050 se mais países adotarem suas próprias metas e se empenharem a fundo para cumpri-las.

Figura 2. Datas previstas para a neutralização. O Suriname e o Butão (rosa) têm hoje emissões negativas de carbono. Os países em verde se comprometeram oficialmente a alcançar a neutralização em 2045 ou 2050. Pequenos Estados insulares propuseram legislações para alcançá-la em 2050. (Dados de [4], atualizados em dezembro de 2020.)

As emissões negativas podem reverter a mudança climática?

Há dois motivos para removermos CO2 da atmosfera. Primeiro, o aquecimento total que a Terra experimenta está estreitamente relacionado à quantidade total de CO2 já emitida [5], havendo, portanto, a possibilidade de conseguirmos reverter esse aquecimento no futuro, graças às emissões negativas. O segundo motivo diz respeito às emissões zero: é difícil evitar as emissões de CO2 causadas por certas atividades, como os voos. Precisamos, sim, reduzir o número de voos, mas é improvável que consigamos eliminar todos no futuro, de modo que temos de descobrir uma maneira de “anular” as emissões positivas dessa atividade.

Há muitas maneiras, naturais e artificiais, de remover da atmosfera o CO2 que afeta o clima. Alguns exemplos são dados na Figura 3. Uma sugestão é capturar e enterrar o CO2 em poços de petróleo desativados e formações geológicas, isolando-o da atmosfera. Chama-se a isso captura e armazenamento de carbono (CAC). Plantar árvores também é uma boa ideia, pois elas absorvem CO2 e liberam oxigênio durante a fotossíntese. Também podemos plantar árvores para queimá-las e obter energia (em vez de usar combustíveis fósseis) e depois capturar o CO2 liberado. Isso tem o nome de bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BCAC). Trata-se de um método de emissões negativas porque o carbono presente na árvore já estava na atmosfera: basta então capturá-lo e removê-lo. O BCAC tem potencial para remover cerca de um quarto de nossas emissões totais atuais por volta de 2050. Pode-se também “aspirar” o CO2 diretamente da atmosfera e enterrá-lo, processo conhecido como captura e armazenamento de carbono diretamente do ar (CACDA).

Figura 3. Potencial de várias soluções para remover o CO2 atmosférico em 2050. As unidades são bilhões de toneladas de CO2 por ano. (Adaptado de Minx et al.[6].)

As árvores removem naturalmente o COda atmosfera, de modo que plantá-las em grande número pode eliminar mais 5,5 bilhões de toneladas de CO2. Por meio do sequestro de carbono, as plantas capturam naturalmente carbono da atmosfera e guardam-no no solo. Queimar árvores e plantas na ausência de oxigênio também ajuda a armazenar CO2 em forma sólida por milhares de anos, mantendo-o longe da atmosfera. O produto resultante se chama biocarvão. Embora uma grande quantidade de CO2 seja liberada no processo de biocarvão, ele continua sendo uma poderosa fonte de emissões negativas a médio e longo prazo. O biocarvão pode ser usado também como fertilizante para ajudar o crescimento das plantas.

Há alguns inconvenientes nesses métodos de remoção do CO2 da atmosfera. A tecnologia CACDA ainda é muito cara e usa muita energia. Soluções com base em árvores e plantas exigem grandes extensões de terra – e a terra é limitada, o que poderia reduzir a quantidade de solo disponível para as culturas de alimentos. Redução na produção de alimentos significa aumento de preços e com isso mais gente viria a passar fome. Uma bem-sucedida remoção de carbono da atmosfera requer cooperação entre países e povos, além da disposição dos governos a fazer maiores e mais dispendiosos investimentos em tecnologias de captura de carbono.

 Ainda que todos os métodos potenciais de emissões negativas fossem usados, não seriam suficientes para alcançar a neutralização de CO2 com nossas atuais emissões de 42 bilhões de toneladas por ano. Portanto, as emissões negativas não são uma cura miraculosa: precisamos também reduzir outros tipos de emissões.

Cabe a nós evitar as piores consequências do aquecimento global. Falar sobre mudança climática é a maneira mais eficiente de atrair pessoas para o mesmo barco. Todos temos de trabalhar duro para conseguir a neutralização em 2050, nos níveis individual e coletivo. Lembre-se: cada décimo de grau importa!

Glossário

Emissões negativas: Remoção de CO2 da atmosfera.

Neutralização de emissões: A quantidade de CO2 emitida iguala a quantidade de CO2 removida da atmosfera por meio de métodos naturais ou artificiais.

Pegada de carbono: Quantidade de gases do efeito estufa liberada na atmosfera como resultado de nossas atividades diárias. É medida em toneladas equivalentes de CO2 por pessoa e ano.

Captura e armazenamento de carbono: Processo natural pelo qual o CO2 é retirado da atmosfera e guardado em lugar seguro (como formações geológicas), onde não prejudica o sistema climático ou os ecossistemas.

Bioenergia com captura e armazenamento de carbono: Alternativa natural aos combustíveis fósseis. Consiste em plantar árvores para depois queimá-las e gerar grande quantidade de energia. O CO2 liberado no processo é capturado e mantido longe da atmosfera.

Captura e armazenamento de carbono diretamente do ar: Solução humana para remover CO2 da atmosfera pela “aspiração” de grandes quantidades de ar e armazenamento do CO2 debaixo da terra.

Sequestro de carbono: Processo pelo qual as plantas capturam CO2 da atmosfera e o armazenam no solo.

Biocarvão: Produto residual obtido pela queima de árvores e plantas na ausência de oxigênio.

Referências

[1] Friedlingstein, P., O’Sullivan, M., Jones, M. W., Andrew, R. M., Hauck, J., Olsen, A. et al. 2020. “Global Carbon Budget 2020.” Earth Syst. Sci. Data 12.3269-340. DOI: 10.5194/essd-12-3269-2020.

[2] Millward-Hopkins, J., Steinberger, J. K., Rao, N. D. e Oswald, Y. 2020. “Providing decent living with minimum energy: a global scenario.” Glob. Environ. Change. 65.102168. DOI: 10.1016/j.gloenvcha.2020.102168.

[3] Wynes, S., e Nicholas, K. A. 2017. “The climate mitigation gap: education and government recommendations miss the most effective individual actions.” Environ. Res. Lett. 12.074024. Disponível online em https://oscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/aa75412?

TB_iframe=true&width=921.6&height=921.6.

[4] Energy & Climate Inteligence Unit. 2020. Countdown to Zero Plotting Progress Towards Delivering Net Zero Emissions by 2050. Disponível em https://ca1eci.edcdn.com/reports/ECIU_Countdown_to_Net_Zero.pdf (acesso em 4 de janeiro de 2021).

[5] Allen, M. R., Frame, D. J., Huntingford, C., Jones, C. D., Lowe, J. A., Meinshausen, M. et al. 2009. “Warming caused by cumulative carbon emissions towards the trillionth tonne.” Nature. 458:1163-6. DOI: 10.1038/nature08019.

[6] Minx, J. C., Lamb, W. F., Callaghan, M. W., Fuss, S., Hilaire, J., Creutzig, F. et al. 2018. “Negative emissions – Part 1: research landscape and synthesis.” Environ. Res. Lett. 13.063001. Disponível em: https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/aabf9b

Citação

Trascasa-Castro, P. e Smith, C. (2021). “What Can We Do to Address Climate Change?” Front. Young Minds. 9:672854. DOI: 10.3389/frym.2021.672854.

Agradecemos a Patricia Cerdeira Morelatto, do Instituto de Biociências da Unesp em Rio Claro, pela leitura atenta.

Encontrou alguma informação errada neste texto?
Entre em contato conosco pelo e-mail:
parajovens@unesp.br