Neurociências e Psicologia 20 de julho de 2022, 11:49 20/07/2022

Como a repetição afeta as crenças de jovens e adultos

Autores

Jovens revisores

Resumo

Como você sabe se uma coisa é verdadeira? Porque a aprendeu na escola? Porque já ouviu falar dela antes? Nosso cérebro pode se lembrar de uma grande quantidade de informação, mas nem sempre usamos essa informação quando decidimos o que é verdadeiro. Às vezes, recorremos a atalhos como “Terei ouvido isso antes?” em lugar de refletir sobre o que sabemos. Esses atalhos podem nos induzir a equívocos – como pensar que uma declaração falsa é verdadeira só por tê-la ouvido muitas vezes. Os pesquisadores chamam a isso “efeito de verdade ilusória”. As pessoas tendem a acreditar mais na informação que ouviram diversas vezes. Isso acontece mesmo quando elas deveriam saber que o que estão ouvindo é errado! Já têm a informação certa arquivada na memória, mas a repetição leva-as a acreditar que a informação falsa é verdadeira. Neste artigo, examinamos por que isso acontece e como pode afetar jovens como você!

A repetição leva as pessoas a acreditarem que algo é verdadeiro

Qual foi a última coisa que você comeu? Essa pergunta talvez não seja muito difícil de responder, pois o cérebro humano tem uma imensa capacidade de memória. O cérebro capta imagens e sons, ou ideias e conceitos, e armazena-os até precisarmos pensar neles de novo. Essa é uma capacidade das mais úteis e, em geral, nos serve bem. Nossas lembranças nos ajudam quando lemos um livro ou queremos recordar o que aconteceu no capítulo anterior. Ajudam-nos também quando estamos jogando um jogo e conhecemos todas as regras, embora as tenhamos aprendido meses ou anos antes. De fato, você está usando sua memória agora mesmo, enquanto lê este artigo, para armazenar ideias em seu cérebro e, se tudo der certo, lembrar-se delas mais tarde.

Em geral, é realmente muito útil para as pessoas possuírem esses sólidos sistemas de memória. No entanto, eles nem sempre são perfeitos. Às vezes, esquecemos coisas ou colocamos algo fora de lugar e não conseguimos mais encontrá-lo. Não raro, achamos que sabemos a coisa certa, mas na verdade não sabemos, como quando damos uma resposta errada a um questionário e estávamos certos de que era a resposta certa. Sucede também que não consigamos recorrer a lembranças quando deveríamos. Um exemplo de falha em recorrer a lembranças é aquilo que os pesquisadores chamam de efeito de verdade ilusória. Pessoas que ouvem várias vezes uma declaração falsa como “Os leopardos são os animais terrestres mais rápidos” são mais propensas a julgá-la verdadeira do que quem a ouviu uma vez só [1]. Repetir uma coisa várias vezes não a torna verdadeira. Sua irmã não é um monstrinho, não importa quantas vezes você diga isso! Entretanto, a repetição pode fazer com que declarações pareçam verdadeiras.

Você pode pensar que esse efeito só ocorre para fatos ou tópicos que as pessoas não conhecem bem ou não estudaram na escola. Talvez até saibam que o guepardo, e não o leopardo, é o animal terrestre mais veloz. Infelizmente, o efeito de verdade ilusória ocorre mesmo para informação que as pessoas sabem ser falsa, como “O emu é um animal extinto” ou “O microscópio ajudará você a ter uma boa visão das estrelas”. Ouvir uma declaração falsa várias vezes também torna as pessoas mais propensas a acreditar nela, ainda que seu conhecimento a negue [2, 3]!

A idade faz diferença?

A maior parte da pesquisa sobre o efeito de verdade ilusória foi feita com adultos. É importante avaliar como os adultos pensam e como sua memória funciona, mas isso se aplica também aos jovens. Estudando os jovens, podemos obter uma ideia melhor do modo como nosso cérebro vai mudando à medida que envelhecemos. Esse é o principal objetivo de cientistas como nós, que trabalhamos com psicologia do desenvolvimento: estudamos como a mente das pessoas se “desenvolve”. A fim de descobrir como nosso cérebro se modifica com relação ao efeito de verdade ilusória, planejamos um experimento para responder a algumas perguntas importantes: os jovens manifestam o efeito de verdade ilusória? E, se for assim, ele ocorre também em crianças muito novas? Precisamos ser capazes de pensar sobre nosso próprio pensamento (o que só crianças mais velhas conseguem fazer) para estabelecer a conexão entre repetição e verdade?

Como testar o efeito de verdade ilusória?

A fim de descobrir se os jovens também exibem o efeito de verdade ilusória, precisávamos primeiro escolher as idades que queríamos estudar. Nesse experimento, optamos por crianças de 5 e 10 anos, mais adultos em idade universitária, para comparar grupos que pensam de maneira muito diferente. Empregamos crianças de 5 anos como nosso grupo etário mais jovem porque as mais novas realmente não entenderiam o experimento!

A seguir, precisávamos de algumas declarações que testassem as crenças das pessoas. Preferimos declarações simples sobre a natureza, com variados níveis de dificuldade. Algumas provavelmente até as crianças de 5 anos saberiam se eram verdadeiras ou falsas (fáceis). Outras eram do conhecimento de crianças de 10 anos e adultos (médias). E outras, finalmente, nem os adultos saberiam se eram verdadeiras ou falsas (difíceis). Ao todo, foram 48 declarações. Examine a Tabela 1 para exemplos de algumas das declarações verdadeiras e falsas que usamos.

Tabela 1. Exemplos de declarações verdadeiras e falsas usadas em nosso experimento.

Finalmente, era necessário achar um meio de descobrir se as pessoas julgavam as declarações verdadeiras ou falsas. Foi a parte mais fácil: bastou perguntar a elas o que pensavam! Nesse experimento, as pessoas deviam dizer se cada declaração era “verdadeira” ou “não verdadeira” e se elas tinham “muita certeza” ou “pouca certeza” da resposta que davam.

Depois de juntar todas as peças – pessoas a serem testadas, declarações para testá-las e o modo como as testaríamos –, colocamos todas juntas a fim de iniciar o experimento. Primeiro, pedimos que os adultos e as crianças entrassem em nosso laboratório e aceitassem tomar parte no estudo. Depois, eles ouviram 24 das 48 declarações (12 verdadeiras e 12 falsas). Enquanto ouviam, informavam se achavam cada declaração “interessante” ou “não interessante” (para terem algo que fazer enquanto isso). As declarações eram apresentadas mediante fones de ouvido por “Ruby, o Robô”. Antes de ouvir, cada um era informado de que “Ruby sabe muito sobre algumas coisas e pouco sobre outras. Portanto, algumas coisas que ele contar serão verdadeiras e outras, não”.

Após ouvir, os participantes se dedicavam a resolver quebra-cabeças para ficar com a mente longe do experimento durante um minuto. Finalmente, ouviam Ruby recitar as 48 declarações – as que já tinham ouvido e algumas novas. Para cada declaração, pedíamos que dissessem se ela era “verdadeira” ou “não verdadeira” e, depois, se tinham “muito certeza” ou “pouca certeza” de suas respostas (Figura 1).

Figura 1. Em nosso experimento, Ruby, o Robô, recitou declarações verdadeiras e falsas para os participantes, que em seguida deviam classificá-las como “verdadeiras” ou “não verdadeiras” e afirmar se tinham “muita certeza” ou “pouca certeza” de suas respostas.

Tanto crianças quanto adultos vivenciam o efeito de verdade ilusória

Nossa principal descoberta foi que, independentemente da idade, as pessoas testadas classificavam como “verdadeiras” mais as declarações repetidas do que as novas (Figura 2). Ou seja, ouvir uma declaração mais de uma vez levava pessoas de todas as idades a acreditarem mais nela! Isso ocorreu com declarações tanto verdadeiras quanto falsas. Esperávamos, com base em pesquisa anterior, que o efeito de verdade ilusória se manifestasse em adultos, mas o fato de se manifestar também em crianças de 5 anos foi um achado novo!

Figura 2. Percentagens de declarações novas e repetidas classificadas como “verdadeiras” por cada faixa etária. Declarações repetidas (em laranja) apresentaram maior probabilidade de ser classificadas como “verdadeiras” do que as novas (em azul), para os participantes de todas as idades. Isso significa que o efeito de verdade ilusória ocorre tanto em crianças de 5 anos quanto em adultos.

Outro achado interessante foi que todos acreditavam mais em declarações repetidas independentemente do nível de dificuldade delas. Isto é, a repetição afetava o que as crianças de 5 anos pensavam das declarações difíceis, o que as crianças de 10 anos pensavam das declarações médias e mesmo o que os adultos pensavam das declarações fáceis. A repetição induziu mesmo os adultos do estudo a acreditar mais prontamente em declarações simples como “A vespa é o inseto que fabrica o mel”. E isso aconteceu embora até criancinhas saibam que a resposta certa é “abelha”!

Então, o que nossa pesquisa significa?

Uma das principais conclusões de nosso estudo foi que o vínculo entre repetição e verdade se estabelece bem cedo na vida – no mínimo quando temos 5 anos de idade. Crianças dessa idade, quando ouvem uma declaração duas vezes, tendem a acreditar que ela é verdadeira, da mesma forma que as de 10 anos e os adultos. Confirmamos também que as pessoas acreditam em relatos repetidos, ainda quando deveriam saber que são falsos. Como outros estudos já haviam demonstrado que isso é verdadeiro, temos aqui uma replicação, ou seja, os resultados de um experimento foram obtidos de novo por um experimento diferente. Dado que experimentos diferentes podem às vezes levar a diferentes resultados, a replicação de achados fornece evidência adicional.

De um modo geral, os psicólogos do desenvolvimento, ao fazer esse tipo de pesquisa da memória, ajudam-nos a entender como as crianças aprendem e quais fatores influenciam sua opinião sobre o que é verdadeiro e falso. Muitas coisas em nossas vidas se repetem – desde comerciais de TV a fatos que nossos amigos nos contam. Algumas são verdadeiras, outras são falsas; é, pois, importante entendermos como o ato de repetir afeta o modo de lembrarmos a informação!

Glossário

Efeito de verdade ilusória: A constatação de que as pessoas tendem a acreditar em informações depois de ouvi-las muitas vezes.

Psicologia do desenvolvimento: Área da psicologia que estuda como as crianças mudam ao crescer.

Replicação: Na pesquisa científica, a repetição de um experimento para confirmar achados ou garantir precisão.

Fonte original do artigo

Fazio, L. K. e Sherry, C. L. 2020. “The effect of repetition on truth judgements across development.” Psychol. Sci. 31:1150–60. DOI: 10.1177/095679762093534.

Referências

[1] Dechêne, A., Stahl, C., Hansen, J. e Wänke, M. 2010. “The truth about the truth: a meta-analytic review of the truth effect.” Pers. Soc. Psychol. Rev. 14:238–57. DOI: 10.1177/1088868309352251.

[2] Fazio, L. K, Brashier, N. M., Payne, B. K. e Marsh, E. J. 2015. “Knowledge does not protect against illusory truth.” J. Exp. Psychol. Gen. 144:993–1002. DOI: 10.1037/xge0000098.[3] Fazio, L. K, Rand, D. G. e Pennycook, G. 2019. “Repetition increases perceived truth equally for plausible and implausible statements.” Psychon. Bull. Rev. 26:1705–10. DOI: 10.3758/s13423-019-01651-4.

Citação

Pillai, R., Sherry, C. e Fazio, L. (2021). “Repetition affects what kids and adults believe.” Front. Young Minds. 9:582202. DOI: 10.3389/frym.2021.582203.

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